Cobrir uma guerra, um desastre natural ou uma operação policial exige mais do que pressa e câmera. Exige preparo físico, psicológico, noção de risco e responsabilidade com a informação e com a vida de quem está no local.
Foi para compreender como jornalistas podem se preparar para atuar em cenários como esses que o Diário do Pará, representado por mim, participou, entre os dias 13 e 17 de julho, no Rio de Janeiro, da 3ª edição do Curso de Cobertura Jornalística em Área de Combate e em Emergências (CCJACE), promovido pela Marinha do Brasil. Organizado pelo Capitão de Corveta Fabrício Costa e realizado no Centro de Operações de Paz e Humanitárias de Caráter Naval (COpPazNav), na Ilha do Governador, o treinamento reuniu 76 jornalistas selecionados entre um recorde de 435 inscritos, vindos de 25 estados e do Distrito Federal.
Coordenador do curso e assessor de Comunicação da Marinha do Brasil, o comandante Fabrício Costa explica que a iniciativa busca aproximar as instituições dos profissionais da comunicação na formação dos jornalistas para atuar em cenários de crise e conflito.
“Tivemos um recorde de 435 inscrições, dos quais 76 profissionais foram selecionados. A Marinha notou que havia uma lacuna na formação dos comunicólogos no Brasil. Muitos dos jornalistas não têm essas disciplinas de operações humanitárias, de combate e conflitos armados”, disse.
Criado em 2008, o COpPazNav é o centro de excelência da Marinha para o treinamento de militares e civis em operações de paz e ações humanitárias.
Nesta edição, participaram profissionais de 72 instituições, entre elas 37 veículos de comunicação, 20 universidades, 11 assessorias de imprensa e órgãos de segurança pública e quatro agências de notícias.
Para compreender como esse treinamento impacta a rotina profissional, a reportagem acompanhou a experiência de três participantes do curso: Álvaro Campos, do Valor Econômico; Aline Basanella, do Portal Entrenews, de Americana (SP); e William Moreira, do Portal de Americana (SP). Ao longo desta reportagem, eles mostram como a imersão modificou a percepção sobre segurança, responsabilidade e os desafios de cobrir situações de risco.
Cinco dias de imersão
O CCJACE tem como objetivo aproximar jornalistas e instituições militares para que ambos compreendam melhor suas funções e atuem de forma mais segura em cenários de crise.
Durante cinco dias, os participantes vivenciaram uma rotina semelhante à enfrentada por militares e equipes de segurança em operações reais. As atividades reuniram instrutores da Marinha do Brasil, da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil do Rio de Janeiro, do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e do Corpo de Bombeiros Militar.
A programação incluiu módulos de primeiros socorros, técnicas de negociação, armamento e seus efeitos, ameaças nucleares, biológicas, químicas e radiológicas (NBQR), medidas de proteção individual, deslocamento em áreas com explosivos improvisados, progressão em ambiente urbano, liderança, análise de risco e uma missão simulada.
Na parte teórica, os jornalistas conheceram detalhes das operações conduzidas pela Marinha, como a proteção da soberania nacional, a presença brasileira na Antártica, o apoio humanitário durante as enchentes no Rio Grande do Sul, as ações nas fronteiras e o monitoramento da chamada Amazônia Azul.
Já nas atividades práticas, os participantes embarcaram nos Carros Lagarta-Anfíbios (CLAnf), utilizados em operações de desembarque de tropas, e visitaram o Navio de Desembarque de Carros de Combate (NDCC) Almirante Saboia, conhecendo de perto a estrutura empregada em operações anfíbias e missões humanitárias.
Muito além da técnica
A programação também contou com palestras de profissionais que atuaram em cenários de guerra e crises internacionais. Entre elas, a correspondente Sônia Bridi, que compartilhou experiências acumuladas em coberturas realizadas em diferentes países.
O principal alerta foi sobre a necessidade de preparo físico.
“Todo repórter de campo precisa fazer exercícios físicos, pois é algo essencial para conseguir desempenhar bem suas funções.”
A recomendação dialogou diretamente com a rotina enfrentada pelos participantes durante os exercícios práticos, que exigiram resistência física, rapidez na tomada de decisão e capacidade de atuar sob pressão.
As reflexões também apareceram nos relatos dos jornalistas ouvidos pela reportagem. Embora atuem em áreas distintas, todos afirmam que a experiência ampliou a compreensão sobre os riscos envolvidos em uma cobertura de crise.
Para Álvaro Campos, jornalista do Valor Econômico, o momento mais desafiador foi justamente sair da rotina da redação e enfrentar atividades que exigiam preparo físico.
“Creio que o momento mais desafiador foram as atividades práticas. Como eu cubro o setor bancário, estou acostumado a frequentar escritórios na Avenida Faria Lima, não a pautas que demandem esforço físico”, conta.
A jornalista Aline Basanella, do Portal Entrenews, de Americana (SP), afirma que passou a enxergar de outra forma os desafios enfrentados em coberturas de risco.
“Na verdade, eu não tinha muito essa percepção. É muito diferente quando vivenciamos as experiências ‘do outro lado’ e entendemos os verdadeiros riscos da situação. Ter essa capacitação traz mais segurança e mais preparo.”
Informação com responsabilidade
Além dos aspectos operacionais, o curso também estimulou discussões sobre ética, velocidade da informação e responsabilidade jornalística em situações de crise.
Para Aline, o maior desafio é equilibrar a necessidade de publicar rapidamente com a confirmação dos fatos.
“Acredito que o principal dilema é justamente a demora por parte da fonte principal e a necessidade da checagem urgente por parte do jornalista.”
Segundo ela, a experiência reforçou a importância da credibilidade.
“A importância da checagem da informação, mesmo em situações urgentes, e a importância de uma relação de confiança com as fontes, principalmente em um cenário em que existem muitos dados e que envolve a sociedade como um todo.”
Álvaro Campos também chamou atenção para os riscos da busca pela velocidade.
“As redes sociais demandam do jornalista muita velocidade e podem acabar favorecendo posturas mais sensacionalistas, em busca de ‘cliques’. Entre velocidade e qualidade, é preciso sempre escolher a segunda. O bom jornalismo depende de confiança e uma informação divulgada erroneamente, em prol da velocidade, pode acabar com a credibilidade conquistada por anos.”
Para William Moreira, do Portal de Americana, interior de São Paulo, a principal lição foi compreender que o direito à informação deve caminhar ao lado da preservação da vida.
“O direito à informação é um dos pilares do jornalismo, mas ele precisa caminhar junto com a responsabilidade. Em situações de crise, uma informação divulgada no momento errado pode colocar em risco equipes de segurança, profissionais da imprensa e até pessoas que estão sendo socorridas.”
Os limites da cobertura
Outro tema recorrente foi a necessidade de compreender os limites operacionais durante ações policiais, militares e humanitárias.
Álvaro afirma que a experiência mudou sua percepção sobre informações estratégicas.
“Após o CCJACE, entendi melhor que expor detalhes de estratégias militares ou outros tipos de informação sensível pode afetar o trabalho das forças de segurança e colocar todos em risco. É preciso ponderar as consequências daquela notícia.”
Aline destaca que conhecer a rotina das equipes de segurança ajuda o jornalista a compreender até onde pode atuar.
“No curso entendemos o outro lado, entendemos os limites, até onde podemos chegar. São momentos importantes para o jornalista, mas também temos que entender que há limites, principalmente de segurança.”
William também ressalta que o curso reforçou uma prioridade muitas vezes esquecida.
“Ao longo da minha trajetória como jornalista, já estive em coberturas de ocorrências policiais, operações de segurança, grandes acidentes e outras situações em que o ambiente apresentava riscos. O CCJACE trouxe uma nova perspectiva sobre esse tipo de cenário. O curso mostrou que, antes da notícia, a prioridade deve ser sempre a segurança do profissional e das equipes que atuam na ocorrência.”
Aproximar militares e imprensa
Durante a abertura do curso, o Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Almirante de Esquadra (FN) Carlos Chagas Vianna Braga, destacou que o principal objetivo do CCJACE é aproximar jornalistas e militares, reduzindo preconceitos e fortalecendo a compreensão mútua sobre o trabalho de cada profissão.
Segundo ele, tanto militares quanto jornalistas atuam em ambientes de risco e precisam estar preparados para tomar decisões sob pressão.
“Todos estão expostos ao perigo. Alguns têm como arma o fuzil; outros, a caneta. Mas ambos enfrentam riscos para cumprir sua missão.”
O comandante lembrou que centenas de jornalistas morreram em serviço ao longo dos últimos anos, muitos deles durante conflitos armados, o que reforça a importância de treinamentos específicos para profissionais da imprensa.
Vianna Braga também ressaltou que o preparo militar para operações de guerra está diretamente ligado à capacidade de resposta em desastres naturais e missões humanitárias.
Como exemplo, citou a atuação brasileira após o terremoto na Venezuela, quando um hospital de campanha operado por profissionais de saúde e Fuzileiros Navais foi o primeiro a iniciar atendimento às vítimas.
“Quanto melhor preparados para a guerra estivermos, melhor preparados estaremos para atuar em crises humanitárias. A logística é muito parecida.”
Para o comandante, iniciativas como o CCJACE também contribuem para combater estereótipos que ainda existem entre militares e jornalistas.
“Nada melhor do que trabalhar juntos para gerar compreensão mútua.”
Cultura de segurança
Na avaliação dos participantes, um dos maiores legados do curso é incentivar uma cultura de planejamento e segurança nas redações brasileiras.
Álvaro Campos acredita que muitas empresas ainda não possuem protocolos para coberturas de risco.
“Infelizmente a realidade de enorme parte da imprensa brasileira é de redações enxutas e sem a infraestrutura adequada. No fim das contas, tudo é feito sem planejamento, no improviso. Não existem manuais, protocolos ou políticas voltadas para uma cobertura segura e responsável.”
Ele também faz um alerta sobre a busca pelo chamado “furo”.
“Acho que o erro mais comum é o repórter, em busca do ‘furo’, acabar se arriscando demais. O curso mostrou que isso pode ser fatal. Um jornalista morto, ou mesmo ferido, não vai conseguir cumprir seu papel.”
Para William Moreira, o CCJACE vai além da capacitação técnica.
“O CCJACE é uma iniciativa extremamente importante porque aproxima jornalistas da realidade enfrentada pelas Forças Armadas e pelos órgãos de segurança em situações de crise. Mais do que ensinar técnicas, o curso desenvolve uma cultura de segurança, planejamento e tomada de decisão. Isso contribui diretamente para um jornalismo mais qualificado, mais responsável e, principalmente, mais seguro.”
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