Laudos de DNA, vestígios de sangue, exames necroscópicos e elementos balísticos ajudaram a esclarecer crimes de grande repercussão no Pará. Aliada às técnicas de investigação empregadas pela Polícia Civil nos inquéritos, a perícia científica teve papel importante na identificação de autores e na reconstrução de casos que marcaram a história policial do estado.
A evolução das tecnologias utilizadas para localizar e analisar vestígios ampliou a capacidade de investigação ao longo das últimas décadas. Entre os casos emblemáticos estão os assassinatos dos irmãos Novelino, de Bruna Leite Sena e de Cíntia Oliveira, além da Chacina do Guamá, que deixou 11 mortos e uma pessoa ferida.
Perícia ajuda a reconstruir crimes
No caso dos irmãos Novelino, ocorrido em 2007, o trabalho dos delegados e investigadores da Polícia Civil do Pará, com o apoio da perícia criminal, permitiu identificar os principais responsáveis pelo duplo assassinato. O crime é considerado um dos que alcançaram maior repercussão na mídia paraense nos últimos 30 anos.
Um dos recursos determinantes foi o luminol, reagente quimioluminescente que entra em contato com o sangue e emite luz. O procedimento ajudou a definir que os irmãos foram assassinados dentro da empresa Service Brasil, no bairro de Batista Campos, pertencente ao empresário Chico Ferreira.
A atuação da perícia, no entanto, depende da preservação dos vestígios encontrados no local do crime. Por isso, profissionais da área também destacam a importância de conscientizar a população sobre os cuidados necessários antes da chegada das autoridades.
A falta de informação pode levar moradores e até familiares da vítima a alterar o ambiente, tornando o local inidôneo para a perícia. Em outros casos, os próprios autores modificam a cena na tentativa de prejudicar o trabalho da Polícia Científica.
Luminol revelou local do duplo assassinato
No dia 25 de abril de 2007, Belém tomou conhecimento do desaparecimento dos empresários Ubiraci e Uraquitã Borges Novelino. O caso se tornaria um dos crimes que mais chocaram a população paraense nos anos 2000.
A investigação começou depois que o pai dos empresários, Ubiratan Lessa Novelino, procurou a polícia ao estranhar que os filhos não haviam voltado para casa naquela noite. Na tarde do dia seguinte, um investigador da Delegacia de Benfica recebeu várias ligações sobre um carro que estaria sendo desmontado em um sítio pertencente ao radialista Luiz Araújo.
O veículo apresentava as mesmas características daquele usado pelos irmãos Novelino na noite do desaparecimento. Posteriormente, a polícia confirmou que se tratava do mesmo carro.
Com a prisão de Luiz Araújo, dono do sítio, a investigação chegou ao empresário Chico Ferreira. Ele havia comparecido à sede da Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe) no dia do desaparecimento, alegando que pretendia colaborar com a apuração.
Inquérito reuniu mais de 5 mil páginas
A coleta de vestígios e os depoimentos de pessoas relacionadas ao crime deram origem a um inquérito policial com mais de 5 mil páginas. A Polícia Civil identificou que Chico Ferreira tinha uma dívida com os irmãos Novelino e, com a intermediação de Luiz Araújo, contratou matadores para executar o crime.
Segundo a investigação, o ex-policial civil Sebastião Cardias Alves e o ex-fuzileiro naval José Augusto Marroquim de Sousa assassinaram os irmãos dentro da empresa Service Brasil, pertencente a Chico Ferreira. Os envolvidos tentaram simular um assalto.
Dez dias depois do crime, as investigações também permitiram encontrar os corpos dos irmãos. Eles haviam sido colocados em dois camburões e jogados na baía do Guajará.
Em 2008, Chico Ferreira, Luiz Araújo, Sebastião Cardias e José Marroquim foram condenados a 80 anos de prisão, em júri popular, pelo crime de homicídio triplamente qualificado.
DNA esclareceu o caso Anjo Vingador
Outro crime que chocou Belém pela crueldade foi o assassinato de Bruna Leite Sena, que tinha 15 anos. O corpo da adolescente foi encontrado em uma lixeira em frente a um supermercado na Travessa 14 de Abril, no dia 18 de setembro de 2005.
Segundo o relatório da Polícia Civil, o corpo estava envolvido em três sacas de trigo e apresentava vestígios de abuso sexual. Os depoimentos de duas testemunhas contribuíram para que os investigadores chegassem ao acusado.
A primeira testemunha foi a avó de Bruna. No dia do desaparecimento, ela recebeu uma ligação de Marcelo Lutier Gomes Sampaio. Ao perguntar o que ele queria com a neta, ouviu que o rapaz havia combinado um encontro com a adolescente para que ela entregasse algumas fotos de um músico do qual era fã.
Bruna não voltou para casa naquela noite. Depois que a polícia encontrou o corpo da adolescente, a avó desconfiou do rapaz que havia ligado antes de a jovem sair.
A segunda pessoa que manteve contato telefônico com o acusado foi o então capitão da Polícia Militar, Marcelo Leão. Após a localização do corpo e a divulgação de um retrato falado do possível assassino, o próprio Luthier telefonou para o número de denúncias do Centro Integrado de Operações (Ciop), o 190.
Durante a ligação, ele afirmou que conhecia o autor do crime, que seria um amigo, e relatou detalhes do assassinato. O conteúdo da conversa levou o policial a desconfiar que estava falando com o próprio assassino.
Laudo de DNA confirmou autoria do crime
Após a quebra dos sigilos telefônico e de e-mails, Lutier teve a prisão preventiva decretada. Já sob a custódia do Estado, ele passou pela coleta de material espermático.
Um laudo pericial constatou a compatibilidade entre o DNA do esperma encontrado na vítima e o material colhido de Lutier. A investigação também considerou como evidências uma corda localizada no apartamento do acusado, igual à usada para amarrar Bruna, e fotografias da adolescente.
A polícia esclareceu que Bruna teria conhecido Lutier em um cyber café de Icoaraci e marcado um encontro com ele. O acusado teria levado a jovem ao apartamento, onde a matou por asfixia mecânica e a amarrou com fios de nylon. Depois, teria tentado ocultar o corpo ao jogá-lo na lixeira.
Em dezembro de 2011, a Justiça condenou Marcelo Lutier Gomes Sampaio a 36 anos de prisão em regime fechado por homicídio qualificado e pelos crimes conexos de ocultação e vilipêndio de cadáver.
O crime ficou conhecido como caso “Anjo Vingador”, nome utilizado pelo acusado nas salas de bate-papo em que conversava com a vítima.
Gravação conduziu ao caso Cíntia Oliveira
A estudante Cíntia Oliveira saiu de casa no dia 20 de julho de 2010 para ir à igreja que frequentava, mas não retornou. No dia seguinte ao desaparecimento, a polícia encontrou o corpo da jovem no Cemitério da Piçarreira, no bairro do Bengui.
Durante a investigação, uma gravação feita por um blogueiro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, identificado como Lord Marcus, conduziu a polícia ao nome do principal acusado, Ezequiel Callado.
O internauta costumava conversar com Ezequiel por meio de sites de bate-papo. Em um dos diálogos, Callado confessou o crime. Lord Marcus denunciou o caso à polícia e entregou uma gravação de áudio da conversa.
No diálogo, Ezequiel Callado também apontou a participação de outras duas pessoas no crime, dois adolescentes que seriam amigos dele. A partir dessas informações, a polícia passou a seguir o rastro dos acusados e ouviu uma série de testemunhas, incluindo Ezequiel, que estudava na mesma escola pública que a vítima.
Perícia reconstituiu o assassinato de Cíntia
Ezequiel confessou que esteve presente durante o assassinato de Cíntia, mas negou a autoria do homicídio e atribuiu o crime a uma adolescente. Com o auxílio da perícia criminal, a polícia realizou a reconstituição.
Durante o procedimento, Ezequiel relatou que encontrou Cíntia e a amiga adolescente nas proximidades da feira. Segundo ele, o grupo decidiu comprar vinho e seguir para o cemitério, onde permaneceu conversando e bebendo antes do assassinato.
O laudo necroscópico comprovou que Cíntia Oliveira morreu por asfixia mecânica por estrangulamento. A vítima também apresentava várias lesões na cabeça e no pescoço. Posteriormente, os envolvidos colocaram o corpo em uma cova rasa do cemitério desativado.
Após passar por júri popular, Ezequiel Callado foi condenado, em junho de 2011, a 28 anos e seis meses de prisão em regime fechado por homicídio triplamente praticado, além dos crimes de violação de sepultura e corrupção de menores.
Balística reconstituiu a Chacina do Guamá
Conhecido como Chacina do Guamá, o crime aconteceu na tarde de 19 de maio de 2019, dentro de um bar localizado na passagem Jambu, no bairro do Guamá. Ao todo, 11 pessoas morreram e uma ficou ferida.
Os autores da chacina tentaram dificultar ao máximo a identificação. Os homens chegaram ao bar encapuzados e em veículos com as placas encobertas. Apesar disso, a investigação e a análise técnica realizada pela perícia no estabelecimento ajudaram a apontar como os fatos teriam ocorrido.
De acordo com o inquérito, os peritos recolheram 28 elementos balísticos, entre projéteis e estojos, no bar onde ocorreu a chacina. O laudo da cena do crime concluiu que 22 tiros atingiram as vítimas, muitos deles disparados contra as cabeças, sem chances de defesa.
Sete homens encapuzados teriam entrado no estabelecimento e atirado contra as pessoas que estavam no local. O crime também teria envolvido um oitavo homem.
Conforme a apuração do inquérito policial, os envolvidos, quatro policiais militares e quatro policiais civis, teriam planejado a ação. Eles teriam se encontrado em uma panificadora na Rua dos Pariquis, na tarde do crime, para acertar os detalhes.
Inicialmente, duas pessoas seriam os alvos da execução. Os envolvidos na chacina respondem pelos crimes de homicídio qualificado e lesão corporal. Os que efetuaram os disparos foram autuados como autores, enquanto os demais respondem como partícipes.
Preservação da cena é fundamental
Os quatro casos mostram como diferentes tipos de vestígios podem ajudar a polícia a reconstruir um crime. No assassinato dos irmãos Novelino, o luminol contribuiu para identificar o local da execução. No caso Anjo Vingador, o exame de DNA ligou o material encontrado na vítima ao acusado.
Já o laudo necroscópico ajudou a determinar a causa da morte de Cíntia Oliveira, enquanto a análise dos elementos balísticos permitiu reconstituir parte da dinâmica da Chacina do Guamá.
A preservação do local continua sendo fundamental para que esses vestígios possam ser localizados, coletados e analisados. Alterações feitas pela população, por familiares ou pelos próprios autores podem comprometer a cena e prejudicar o trabalho pericial da Polícia Científica.
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