O governo federal iniciou uma articulação para levar a estados e municípios soluções desenvolvidas no Concurso Público Nacional Unificado (CNU), conhecido como “Enem dos Concursos”. A iniciativa pretende compartilhar conhecimentos, tecnologias e estruturas utilizadas nas seleções federais, permitindo que governadores e prefeitos avaliem a adoção de modelos semelhantes.
A informação foi divulgada com exclusividade pelo g1, que teve acesso antecipado à carta de compromisso assinada pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), pelo Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (Consad) e pela organização República.org.
O acordo foi firmado durante o 136º Fórum Nacional de Secretários de Estado da Administração, realizado em Teresina, no Piauí, e anunciado nesta sexta, 7.
Modelo do CNU para estados e municípios
A proposta não cria um concurso único envolvendo todos os estados e municípios, nem obriga os governos locais a aderirem ao formato. Neste primeiro momento, a parceria estabelece uma agenda de cooperação para produzir estudos, compartilhar metodologias e apoiar administrações interessadas em modernizar seus processos de seleção de servidores. “Uma forma é a questão do conteúdo das provas, de pensar a forma de seleção. E tem um lado, de fato, de compartilhar infraestruturas”, explicou a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.
Segundo a ministra, a experiência acumulada pelo governo federal poderá ser aproveitada tanto na elaboração das provas quanto na organização logística dos concursos. Entre os possíveis benefícios estão a redução de custos, o aumento da segurança dos certames e o aperfeiçoamento dos critérios utilizados para selecionar os novos servidores. “Eu acho que o primeiro é segurança e redução de custos. Essas duas coisas são importantes. E o terceiro é a gente pensar junto a forma de seleção”, afirmou Esther Dweck.Adesão será voluntária
Para quem pretende prestar concurso público, nada muda imediatamente. O acordo não abre vagas, não estabelece um calendário de provas e não cria novas regras para seleções estaduais ou municipais. Qualquer projeto futuro dependerá de análises técnicas, jurídicas, financeiras e operacionais. A decisão de adotar total ou parcialmente o modelo permanecerá sob a responsabilidade de cada estado ou município.
Alguns governos, porém, já demonstraram interesse em conhecer as soluções utilizadas no CNU. Esther Dweck citou o Piauí, a Bahia e o Rio de Janeiro, além do município de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Ainda não existem adesões formalizadas.
A avaliação das instituições envolvidas é de que a cooperação poderá reduzir as diferenças de capacidade técnica entre os entes federativos. Estados e municípios menores frequentemente encontram dificuldades para planejar os concursos, contratar bancas examinadoras e garantir estrutura, segurança e aplicação de provas em diferentes localidades.
Presidente do Consad e secretário de Administração do Piauí, Samuel Pontes afirma que a realização de concursos exige uma operação complexa e de alto custo. “É urgente fortalecer o serviço público, a contratação de servidores, mas é muito pesada a máquina que você precisa fazer girar para planejar, contratar a banca, realizar as provas, atrair os servidores e garantir planos de carreira que realmente sejam atrativos para profissionais qualificados”, declarou.
Para Pontes, o governo federal deverá compartilhar não apenas documentos e orientações, mas também parte da infraestrutura construída para viabilizar o CNU. “Não adianta a União só compartilhar a cartilha, só os documentos. É importante que ela compartilhe a sua infraestrutura pública, que tem um grande valor investido de orçamento público, e que isso possa reverter para os estados também”, defendeu.
O presidente do Consad comparou a proposta ao modelo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que permite às universidades utilizarem uma estrutura nacional de avaliação sem precisar organizar individualmente processos seletivos de grande porte.Provas mais próximas dos candidatos
Descentralização e eficiência dos concursos
Uma das principais inovações do CNU foi a aplicação simultânea das provas em centenas de cidades brasileiras. O formato reduziu a necessidade de os candidatos viajarem para capitais ou grandes centros, ampliando a participação de pessoas que vivem no interior e em regiões mais distantes.
“Você conseguir levar a mesma prova não só aos grandes centros tradicionais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, mas do Oiapoque ao Chuí, é uma inovação gigantesca”, afirmou a diretora-executiva da República.org, Isadora Modesto.
Além da descentralização das provas, a carta de compromisso destaca como resultados do modelo federal a racionalização de custos, o uso de novas tecnologias, o fortalecimento da governança dos concursos e o aumento da eficiência administrativa.
Caso os estudos avancem, as primeiras iniciativas cooperativas deverão priorizar as chamadas carreiras transversais da administração pública. São funções ligadas a planejamento, gestão de pessoas, elaboração de políticas públicas e apoio administrativo, cujos profissionais podem atuar em diferentes áreas, como saúde, educação, segurança e planejamento.
A inclusão de carreiras específicas dessas áreas também poderá ser discutida futuramente, mas dependerá do interesse dos governos e dos resultados dos estudos.Planejamento para 2027
CNU: política permanente e futuras edições
A proximidade da renovação política nos estados é apontada como uma das razões para o lançamento da iniciativa. Governadores eleitos em 2026 e suas novas equipes administrativas assumirão os cargos em 2027, período considerado favorável para o planejamento de longo prazo e a recomposição dos quadros do serviço público.
A expectativa é que os primeiros estudos sejam iniciados ainda em 2026, permitindo que as futuras administrações recebam diagnósticos e propostas estruturadas.“O nosso objetivo real para esse período é plantar essa raiz para que a gente tenha continuidade nesse processo de inovação em processos seletivos para o serviço público”, declarou Isadora Modesto.CNU já levou milhares ao serviço público
Realizado pela primeira vez em 2024, o Concurso Público Nacional Unificado concentrou vagas de diferentes órgãos federais em uma única seleção. A prova foi aplicada simultaneamente em centenas de municípios e organizada por blocos temáticos.
A primeira edição resultou na nomeação de 8.689 servidores para 33 órgãos federais e 40 cargos. Na segunda edição, a previsão é de 4.056 nomeações, distribuídas entre 41 órgãos públicos e 58 cargos.
De acordo com Esther Dweck, o Concurso Nacional Unificado já representa aproximadamente metade das contratações autorizadas pelo governo federal desde o ano de 2023. “Desde o início de 2023, a gente autorizou provimentos para mais ou menos 25 mil pessoas. Quase 13 mil pessoas dessas 25.600 vieram do CNU”, informou.
A ministra afirmou que o governo pretende transformar o modelo em uma política permanente. Uma terceira edição em 2027, entretanto, dependerá da disponibilidade de recursos no Orçamento da União e da quantidade de vagas autorizadas. “A gente está fechando o orçamento para ver se é possível ter espaço para novos concursos no ano que vem e, tendo uma quantidade mínima de vagas, viabilizar um CNU 3”, disse.
A eventual participação de estados e municípios poderá contribuir para a realização de novas edições, mesmo que o número de vagas federais seja menor. “Se houver a participação de estados e municípios, mesmo com menos vagas no nível federal, a gente também consegue fazer, porque haverá vagas estaduais e municipais que justificam uma prova unificada”, explicou a ministra.
Parceria prevê estudos, compartilhamento de tecnologia e apoio à realização de seleções públicas. Adesão será voluntária e não haverá, neste momento, um concurso nacional reunindo União, estados e prefeituras
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