Uma pesquisa inédita liderada pelo Museu Goeldi acompanha seis décadas da trajetória dos Matsigenka no Peru e mostra avanços em saúde, educação e qualidade de vida, ao mesmo tempo em que alerta para novos desafios impostos pela modernidade. Durante décadas, uma ideia equivocada predominou em parte da sociedade: a de que os povos indígenas permaneceriam imutáveis ao longo do tempo ou que estariam condenados ao desaparecimento diante do avanço da sociedade moderna. Um estudo internacional liderado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), de Belém, ajuda a desmontar esse mito ao revelar uma realidade muito mais complexa.
Após reconstruir mais de 60 anos da história do povo indígena Matsigenka, que vive no Parque Nacional do Manu, na Amazônia peruana, os pesquisadores demonstraram que essa população não apenas cresceu de forma consistente, como também passou por uma profunda transformação social. Os indígenas vivem mais, estudam mais, têm menos filhos do que no passado e começam a experimentar uma transição demográfica semelhante à observada em outros grupos populacionais.
Os resultados, divulgados nesta semana pelo Serviço Nacional de Áreas Protegidas do Peru (Sernanp) e pela Sociedade Zoológica de Frankfurt (FZS), representam o primeiro levantamento sistemático da evolução demográfica de uma população indígena amazônica acompanhada ao longo de seis décadas.
A pesquisa mostra que, entre 1964 e 2024, a população passou de apenas 142 para 1.035 habitantes — crescimento de 628%, equivalente a quase oito vezes o tamanho original. Apesar disso, os pesquisadores observaram que esse crescimento começa agora a desacelerar, indicando mudanças profundas nos padrões familiares.
Da sobrevivência à qualidade de vida
Os números mostram uma verdadeira revolução nas condições de vida. A mortalidade geral caiu 75% desde os anos 1960 e a expectativa de vida praticamente dobrou, passando de apenas 22,6 anos para 53,8 anos. Segundo os pesquisadores, a melhora está diretamente relacionada à ampliação do acesso aos serviços de saúde, vacinação, atendimento médico, saneamento básico e água potável.
O antropólogo Glenn Shepard, pesquisador do Museu Goeldi e um dos coordenadores do estudo, destaca que compreender essa trajetória permite muito mais do que simplesmente contabilizar habitantes. “O estudo mostra como essas comunidades viviam antes, como vivem hoje e quais transformações ocorreram ao longo das gerações. Não estamos falando apenas de números, mas da história de famílias inteiras.”
Mulheres estudam mais e adiam a maternidade
Uma das mudanças mais marcantes ocorreu entre as mulheres indígenas. Há cerca de 30 anos, era comum que adolescentes se tornassem mães aos 14 ou 15 anos e tivessem, em média, entre 13 e 14 filhos durante a vida. Hoje, essa realidade mudou significativamente.
Segundo a pesquisa, a fecundidade caiu mais de 50%. Atualmente, as mulheres Matsigenka têm cerca de seis filhos, iniciam a maternidade mais tarde e permanecem por mais tempo na escola. Mais de 30% dos jovens tiveram acesso ao ensino superior desde 2018, um indicador considerado extraordinário para comunidades localizadas no interior da Amazônia.
O pesquisador Enrique Herrera, da Sociedade Zoológica de Frankfurt, afirma que os dados desmontam antigos preconceitos. “O declínio da natalidade ocorre ao mesmo tempo em que aumentam a escolaridade e a expectativa de vida, especialmente entre as mulheres. Estamos diante de uma transição demográfica que desfaz a ideia de um crescimento populacional descontrolado.”
Educação amplia horizontes — e também provoca migração
O levantamento mostra que a educação transformou o destino de centenas de jovens indígenas. Cerca de um terço das pessoas nascidas nas comunidades do Parque Nacional do Manu vive atualmente fora da área protegida. A principal razão é a busca por estudo e trabalho.
Hoje, indígenas Matsigenka atuam como professores, servidores públicos, comerciantes, trabalhadores urbanos e também em atividades ligadas à economia regional. Ao mesmo tempo, o estudo revela um movimento inverso: indígenas de recente contato deixam áreas extremamente isoladas para se aproximar das comunidades estruturadas, onde encontram escolas, postos de saúde, água tratada e outras políticas públicas.
Água limpa salva vidas
Outro resultado considerado emblemático diz respeito ao saneamento. Desde 2011, duas comunidades indígenas receberam sistemas simplificados de abastecimento e purificação da água desenvolvidos pela organização Rainforest Flow, projeto que conta com a colaboração do pesquisador Glenn Shepard.
A tecnologia é simples, utiliza filtros naturais de pedra e areia e pode ser operada pelos próprios indígenas. Os resultados impressionam: nas aldeias atendidas, as mortes infantis provocadas por doenças diarreicas caíram 74%.
Já nas comunidades que ainda não receberam o sistema, os índices permaneceram praticamente inalterados. Os pesquisadores consideram esse um dos exemplos mais claros de como pequenas intervenções de infraestrutura podem produzir enormes impactos na saúde pública em regiões remotas da Amazônia.
Novos desafios chegam com a integração
Apesar dos avanços, o estudo também identifica novas ameaças. Se antes as principais causas de mortalidade infantil estavam associadas à falta de água tratada e às doenças intestinais, atualmente as infecções respiratórias representam o maior desafio.
Entre 2014 e 2024, as mortes relacionadas a doenças respiratórias aumentaram 150%, impulsionadas pela chegada da covid-19, da influenza H1N1 e de outros vírus que atingem especialmente grupos indígenas de recente contato.
Segundo os pesquisadores, esse novo cenário exige políticas públicas específicas para evitar que doenças comuns nos centros urbanos provoquem impactos desproporcionais em populações mais vulneráveis.
Ciência produzida na Amazônia
Embora o estudo tenha sido realizado no Peru, ele possui forte participação brasileira. A pesquisa foi liderada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, uma das mais tradicionais instituições científicas da Amazônia, sediada em Belém, em parceria com a Sociedade Zoológica de Frankfurt. Os dados começaram a ser coletados ainda na década de 1980 e foram atualizados em expedições realizadas entre 2024 e 2025, contando inclusive com pesquisadores indígenas que participaram do trabalho de campo e da validação das informações junto às comunidades.
O levantamento consolida uma das mais completas bases de dados demográficos já produzidas sobre um povo indígena amazônico.
Conservação e desenvolvimento podem caminhar juntos
O Parque Nacional do Manu é considerado um dos locais de maior biodiversidade terrestre do planeta e integra a lista de Patrimônio Mundial da Unesco. Diferentemente do Brasil, a legislação peruana permite que populações indígenas vivam dentro de parques nacionais.
Para os pesquisadores, essa convivência demonstra que conservação ambiental e presença humana não são objetivos incompatíveis. Ao contrário, com informações precisas sobre saúde, natalidade, mortalidade, educação e migração, gestores públicos conseguem planejar políticas que protejam simultaneamente a floresta e seus habitantes. “Agora contamos com dados capazes de orientar decisões futuras”, resume Glenn Shepard. Já Enrique Herrera reforça que compreender a dinâmica das populações indígenas é essencial para construir modelos sustentáveis de gestão das áreas protegidas.
Raio-X da pesquisa
• População: passou de 142 habitantes (1964) para 1.035 (2024)
• Crescimento: aumento de 628% em seis décadas
• Mortalidade geral: redução de 75%
• Expectativa de vida: subiu de 22,6 para 53,8 anos
• Natalidade: caiu mais de 50%
• Jovens no ensino superior: mais de 30% desde 2018
• Migração: cerca de 33% vivem atualmente fora do Parque Nacional do Manu
• Água tratada: redução de 74% das mortes infantis por doenças diarreicas nas comunidades beneficiadas
• Novo alerta: aumento de 150% das mortes por infecções respiratórias entre 2014 e 2024.
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