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Empresários brasileiros discutem tarifaço nos EUA

Entre os segmentos que mais mobilizaram a audiência estiveram pescados, café e mel, justamente alguns dos setores que podem sofrer perdas expressivas caso a tarifa seja confirmada.

Representantes da indústria brasileira e empresários norte-americanos fizeram nesta segunda, 6, uma rara frente conjunta durante audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington, para tentar impedir a entrada em vigor da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão final do governo norte-americano deverá ser anunciada até 15 de julho, após o encerramento da fase de consultas públicas.

Entre os segmentos que mais mobilizaram a audiência estiveram pescados, café e mel, justamente alguns dos setores que podem sofrer perdas expressivas caso a tarifa seja confirmada. No caso do pescado, o impacto preocupa especialmente o Pará, maior exportador brasileiro de peixes e produtos aquícolas para o mercado norte-americano.

O Estado concentra boa parte das exportações nacionais de espécies como piramutaba, pescada-amarela, pargo e filés congelados, tendo os Estados Unidos como um dos principais destinos comerciais. O setor emprega milhares de trabalhadores na pesca industrial, beneficiamento e logística, sobretudo em Belém, Vigia, Bragança, Santarém e municípios da costa paraense.

Setor pesqueiro alerta para risco de perda de mercado

Durante a audiência, representantes da indústria brasileira de pescados defenderam que a medida tarifária prejudicará não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, distribuidores e consumidores americanos.

Segundo empresários do setor, a sobretaxa elevará significativamente os preços ao consumidor final e poderá interromper cadeias de abastecimento construídas ao longo de décadas.

Nos bastidores da audiência, representantes da indústria brasileira ressaltaram que o pescado brasileiro não compete apenas por preço, mas pela regularidade do fornecimento e pelos padrões sanitários exigidos pelos Estados Unidos. A avaliação é de que um aumento de 25% poderá reduzir drasticamente a competitividade do produto brasileiro frente a concorrentes asiáticos e latino-americanos.

Embora demonstrem preocupação, integrantes da delegação brasileira admitem reservadamente que as chances de reversão completa da medida ainda são consideradas reduzidas, devido ao caráter estratégico da política comercial adotada pela administração Donald Trump.

Empresários americanos reforçam argumentos brasileiros

Um dos momentos mais importantes da audiência ocorreu quando empresários norte-americanos passaram a defender publicamente a manutenção das importações brasileiras. Representando a empresa Gehring Montgomery, da Pensilvânia, o empresário Mark Bitting afirmou que a tarifa “na prática, se tornará um novo imposto sobre o consumidor norte-americano”.Segundo ele, a cera de carnaúba utilizada por indústrias farmacêuticas, alimentícias e cosméticas dos Estados Unidos praticamente não possui substituto economicamente viável fora do Brasil. “Na prática, a tarifa se tornará um novo imposto sobre o consumidor norte-americano.”

Outro depoimento considerado relevante veio de Andy Loehlein, presidente da American Seed Trade Association, entidade que representa o setor de sementes dos Estados Unidos.Ele alertou que a medida poderá elevar custos para toda a agricultura americana. “Tarifas sobre sementes causariam mais danos econômicos do que qualquer benefício potencial.” Loehlein acrescentou que a medida acabaria fortalecendo concorrentes internacionais.”Tarifas sobre sementes enfraqueceriam — e não fortaleceriam — a liderança dos Estados Unidos em inovação agrícola.”

Os depoimentos foram recebidos com entusiasmo pelos representantes brasileiros, justamente porque partiram de empresas americanas diretamente afetadas pelo aumento dos custos de importação.

Protecionismo também apareceu

A audiência também registrou manifestações favoráveis à adoção das tarifas.Falando em nome dos pecuaristas norte-americanos, Bill Bullard, presidente da organização R-CALF USA, criticou a possibilidade de alguns produtos brasileiros permanecerem isentos. Segundo ele, “é crescente penetração de importações do Brasil e de outros países que está causando danos irreparáveis.” A fala reforçou o ambiente de disputa entre setores econômicos americanos interessados na proteção do mercado interno e empresas dependentes das importações brasileiras.

Pará pode estar entre os maiores prejudicados

No Brasil, poucos estados acompanham o processo com tanta preocupação quanto o Pará. Além de liderar as exportações nacionais de diversos produtos da pesca, o estado possui uma cadeia produtiva altamente dependente do mercado externo.Empresários do setor avaliam que um aumento de 25% nos custos poderá provocar: redução das exportações para os Estados Unidos; perda de competitividade frente a países asiáticos e latino-americanos; diminuição da produção industrial; impactos sobre milhares de empregos diretos e indiretos ligados à pesca e ao beneficiamento de pescado.

O segmento pesqueiro paraense vinha ampliando sua presença no mercado americano nos últimos anos, impulsionado pela certificação sanitária internacional e pela crescente demanda por pescado amazônico.

Decisão sai até 15 de julho

A audiência pública desta segunda-feira representa uma das últimas etapas do processo conduzido pelo USTR. Após analisar os depoimentos de empresários, associações e especialistas, o governo americano deverá decidir até 15 de julho se confirma integralmente a tarifa de 25%, modifica sua abrangência ou amplia a lista de produtos isentos. A proposta faz parte da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos sobre práticas comerciais brasileiras, iniciada sob a Seção 301 da legislação americana.

Caso seja confirmada, a medida poderá alterar significativamente o fluxo comercial entre os dois países, especialmente em cadeias exportadoras estratégicas como a do pescado paraense, que depende fortemente do mercado norte-americano para manter sua competitividade internacional.

Fator Bolsonaro influenciou tarifaço e ameaça o Pix

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O componente político também passou a integrar o cenário da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Na carta em que anunciou a intenção de impor a sobretaxa aos produtos brasileiros, divulgada em julho, o presidente norte-americano Donald Trump citou nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro e classificou como uma “caça às bruxas” o processo judicial em que ele responde por suposta tentativa de golpe de Estado. A manifestação repercutiu no meio político brasileiro e ampliou o debate sobre a influência de fatores políticos nas relações comerciais entre os dois países.

Paralelamente à discussão tarifária, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) conduz uma investigação ampla sobre práticas comerciais brasileiras. A apuração abrange temas como desmatamento, proteção à propriedade intelectual, supostas distorções concorrenciais em sistemas de pagamento digital, como o Pix, tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a determinados parceiros comerciais, tributação sobre o etanol e possíveis práticas relacionadas à corrupção.

O relatório preliminar do USTR recomenda a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros a partir de 15 de julho. Embora uma lista de exceções preserve itens estratégicos para os Estados Unidos, como aeronaves, carne bovina e suco de laranja, diversos produtos permanecem sujeitos à sobretaxa, entre eles café solúvel, máquinas e equipamentos, ferro-gusa, alguns tipos de arroz, mel orgânico e outros bens exportados pelo Brasil.

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