Como um homem educado para manter “as lágrimas cativas” reage quando o eixo de sua vida é brutalmente arrancado? É essa a premissa que move da morte sua, novo romance do escritor e professor fluminense Bruno Crispim.
Finalista do prestigiado Prêmio Kindle de Literatura e publicado pela editora Faria e Silva, o livro mergulha sem filtros nos primeiros dias de Igor, um homem que tenta atravessar a morte devastadora de sua companheira, Bibi, enquanto enfrenta o protocolo frio dos hospitais, os ritos do funeral e o desafio imediato de se entender como pai solo.
Construído sob uma estrutura não linear, o romance mimetiza o próprio fluxo caótico do luto. O presente de Igor é constantemente invadido por flashes de memória que o transportam de volta à adolescência, quando o amor do casal começou a se desenhar entre jogos de futebol e a rotina miúda do cotidiano.
O medo como ponto de partida
A jornada para dar vida ao livro foi longa: foram sete anos de trabalho e uma dúzia de reescritas até o texto alcançar sua forma definitiva. Curiosamente, a faísca inicial nasceu de um incômodo doméstico e afetivo. Durante uma noite de vinho, a esposa de Crispim disparou uma frase que ecoaria nos anos seguintes:
“Você só vai fazer sucesso quando escrever sobre a minha morte.”
A provocação nascia de uma preocupação real dela sobre como o marido suportaria a existência caso a perdesse. O autor, que divide a vida com a companheira há 26 anos (desde os 16 de idade), transformou o próprio pavor íntimo em matéria literária.
“A morte da minha esposa é um dos meus medos mais íntimos, mais densos. A ideia de perdê-la sempre foi assustadora. Insisti nessa história porque não consegui não escrevê-la”, revela o escritor.
A repressão emocional masculina
Para além do inventário do luto, o livro coloca em xeque a incapacidade histórica dos homens de lidarem com a própria vulnerabilidade. O protagonista Igor carrega o fardo de uma geração criada sob o mantra de que “homem não chora”, o que torna o processo de cura uma barreira quase intransponível.
Crispim, que é Mestre em Escrita Criativa pela PUC-RS, buscou equilibrar essa densidade psicológica com um rigor quase cirúrgico. Na sétima reescrita do livro, enquanto cursava o mestrado, o autor utilizou o repertório de Teoria Literária e Filosofia para amadurecer a voz do protagonista. Ele chegou a contar com a consultoria de médicos para imprimir realismo às cenas hospitalares e ao drama biológico da perda.
As influências artísticas do romance também revelam esse contraste entre o transbordo e o controle: de um lado, a crueza e a liberdade linguística de Hilda Hilst; de outro, a emoção contida e organizada pela forma de Vinicius de Moraes. “Foi nessa tensão que a voz do livro se encontrou”, pontua Bruno.
Um apelo contra os julgamentos fáceis
No fundo, da morte sua se apresenta como um exercício de alteridade. Em tempos de debates polarizados e vereditos rápidos nas redes, o autor espera que a trajetória de Igor sirva para suspender, ainda que por um instante, o julgamento automático sobre a dor do outro.
“Gostaria de suspender por um minuto o julgamento automático que fazemos de alguém que atravessa uma circunstância delicada, alguém que talvez precise menos de condenação e mais de ajuda. De quebra, deixaríamos de acreditar em saídas fáceis para problemas complexos, uma crença perigosa que já nos carregou para direções desastrosas”, conclui Crispim.
Com uma bagagem que já inclui o Prêmio Book Brasil por Kaito: reze por uma boa morte, o Prêmio UFES de Literatura por O Segundo Caçador e uma indicação ao Prêmio Jabuti por Ascensão, Bruno Crispim consolida-se como uma das vozes mais multifacetadas e potentes da nova literatura brasileira.
Ficha Técnica
| Informação | Detalhes |
| Título | da morte sua |
| Autor | Bruno Crispim |
| Editora | Faria e Silva |
| Gênero | Romance Contemporâneo |
| Preço | R$ 69,00 |
| Páginas | 209 |
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