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O cometa que calou o Brasil em dois lances

Em mais de noventa minutos, a bola encontrou Erling Haaland apenas duas vezes, como um cometa que cruza os céus apenas para lembrar aos homens da própria insignificância.

Em mais de noventa minutos, a bola encontrou Erling Haaland apenas duas vezes, como um cometa que cruza os céus apenas para lembrar aos homens da própria insignificância. Na primeira, uma cabeçada. Na segunda, um chute de fora da área. Dois encontros, dois gols, uma sentença: o Brasil estava eliminado da Copa de 2026. Confesso que não me surpreendi. 

Desde a primeira crônica que escrevi aqui para o DIÁRIO NA EUROPA venho insistindo na mesma tecla. Esta seleção brasileira só é imbatível no marketing digital. Dentro das quatro linhas, vive de filtros, algoritmos e campanhas publicitárias. Futebol, esse velho ofício que se aprende com suor e silêncio, há muito deixou de frequentar sua concentração.

E o curioso é que o Haaland dessa Copa está muito distante daquele gigante que atropela defesas vestindo a camisa do Manchester City. Não foi, até agora, nem 10%d o atacante que transforma cada partida da Premier League em espetáculo. 

Mas futebol nunca exigiu abundância para punir a mediocridade. Bastaram uma cabeçada e um disparo de fora da área para decretar o fim de uma ilusão que muitos ainda insistem em chamar de futebol brasileiro. Às vezes, o destino não precisa gritar.: basta um sussurro para derrubar um castelo construído sobre areia.

O pênalti desperdiçado pelo Brasil, logo no início da partida, me causou uma sensação difícil de esquecer. Não vi um jogador profissional carregando cinco estrelas no peito. Vi um garoto assustado diante da responsabilidade. Um menino esmagado pelo próprio reflexo. 

A camisa mais pesada da história do futebol parecia um figurino largo demais para quem jamais compreendeu seu significado. O futebol brasileiro já teve homens que caminhavam para a marca da cal como quem caminhava para a eternidade. Hoje produz pseudo-celebridades que chegam ao pênalti pensando no melhor ângulo para a câmera.

O desfile de dançarinos de TikTok

Porque essa seleção brasileira – em minúsculas, como merece – tornou-se um estranho desfile de dançarinos de TikTok. Rapazes mais preocupados com a tinta do cabelo, com a sobrancelha perfeitamente desenhada, com a chuteira da moda e com a próxima publicação nas redes sociais do que com o peso quase sagrado de defender uma nação. 

O espelho passou a ser mais importante do que o placar, a pose venceu o passe, a coreografia derrotou o treinamento e a selfie aposentou o futebol. E agora o que resta? Uma seleção que vai para 28 anos sem ganhar uma única Copa do Mundo, maior recorde negativo de toda a história da “amarelinha”.

Enquanto isso, a camisa amarela vai perdendo sua aura. Antes, ela intimidava adversários antes mesmo do apito inicial. Hoje parece um uniforme alugado para influenciadores digitais passarem noventa minutos interpretando jogadores de futebol. E ainda perdendo no final. Há muito drible para as câmeras e pouquíssima coragem diante do marcador. Muito discurso motivacional, pouca entrega. Muito gesto ensaiado, nehuma improvisação. Muito marketing, quase nenhuma memória.

Se alguém merece sair desse desastre de cabeça erguida, esse alguém se chama Alisson, o goleiro. Foi o único que me pareceu compreender a dimensão da tragédia. Defendeu o que pôde, adiou o inevitável quantas vezes conseguiu e, sobretudo, teve a expressão de quem realmente sofria. 

Enquanto muitos já pareciam aceitar a eliminação com a naturalidade de quem troca de patrocinador, Alisson carregava nos olhos a velha dor das derrotas que machucam. Ainda existem profissionais que entendem que perder uma Copa do Mundo deveria deixar cicatrizes.

Os deuses que não passam de miniaturas

Os demais pareciam personagens de um tempo estranho, em que a estética vale mais do que a essência. Jogadores que discutem a cor das chuteiras com a mesma intensidade com que deveriam discutir posicionamento. Atletas que fazem caras e bocas para milhões de seguidores, mas que, até agora, ninguém avisou que futebol continua sendo decidido por quem domina a bola, ocupa espaços e honra a camisa. As redes sociais transformaram muitos deles em deuses (em minúsculas, e olhe la), enquanto o gramado insiste em devolvê-los ao tamanho real. E sempre devolve em miniaturas.

No fim, Neymar ainda converteu o pênalti e fez o gol de honra do Brasil. E a comemoração resumiu perfeitamente esta geração: provocação, dedo em riste, peito estufado, como se o teatro amador de um ator fracassado pudesse apagar a realidade. Enquanto o espetáculo das poses seguia em campo, quem caminhava para as quartas de final era a Noruega.

Eu sempre acreditei que existe uma poesia cruel no futebol. Às vezes ela escreve seus versos com lágrimas; outras vezes, com ironia. Dessa vez, escreveu com as duas. E deixou uma verdade impossível de esconder: há seleções que colecionam seguidores, e há seleções que colecionam vitórias. A nossa escolheu o palco e a Noruega escolheu o jogo. E, no tribunal silencioso da bola, é sempre o jogo que recebe a última palavra.

*Sérgio Augusto do Nascimento é um jornalista paraense que vive em Portugal. Já foi repórter e editor e hoje é correspondente do DIÁRIO na Europa.

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