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“Belém foi feita pra mim”: como Mário de Andrade descreveu a cidade durante a viagem de 1927

Em maio de 1927, Mário de Andrade registrou em diários e fotografias as impressões que teve de Belém durante a viagem pelo Norte do Brasil. Foto: Reprodução/Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP)

“Em Belém o calorão dilata os esqueletos e meu corpo ficou exatamente do tamanho de minha alma.” A frase escrita por Mário de Andrade em seu diário, no dia 23 de maio de 1927, resume o impacto que a capital paraense causou no escritor modernista.

Quase um século depois, seus relatos e fotografias continuam revelando uma Belém observada com curiosidade, encanto e atenção aos detalhes do cotidiano.

Um dos fundadores do Modernismo brasileiro e autor de Macunaíma, Mário iniciou, na década de 1920, uma expedição pelo chamado “Brasil profundo”. A passagem pela Amazônia resultou em anotações reunidas em diários, imagens e observações que registram não apenas a paisagem da cidade, mas também seus costumes, sabores e personagens.

Mário de Andrade durante visita à praia do Chapéu-Virado, em Mosqueiro, em maio de 1927. Foto: Reprodução do livro Mário de Andrade – Etnógrafo, Fotógrafo, Poeta.

Como Belém encantou Mário de Andrade

Professor do curso de Letras e do mestrado e doutorado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia, o poeta Paulo Nunes explica que Mário de Andrade realizou a viagem com o patrocínio de dona Olívia Guedes, conhecida como a baronesa do café. Mais do que uma excursão, a iniciativa dialogava diretamente com os princípios do movimento modernista.

“Mário de Andrade, investido na sua função de um curioso ‘pesquisador de campo’ resolveu percorrer o Brasil grande para conhecê-lo melhor, na fonte”, afirma Paulo Nunes.

Segundo o professor, um dos propósitos do Modernismo era redescobrir os diferentes “Brasis” existentes no país. Para ele, Mário foi o intelectual modernista que mais buscou compreender culturas distintas daquelas que conhecia em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

As experiências vividas durante a expedição foram registradas em anotações organizadas posteriormente no livro O Turista Aprendiz, que reúne relatos da viagem intitulada Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega, incluindo passagens por cidades das regiões Norte e Nordeste.

Publicado a partir dos diários de viagem de Mário de Andrade, O Turista Aprendiz reúne as impressões do escritor sobre a expedição que fez pelo Norte e Nordeste do Brasil, incluindo a passagem por Belém em 1927. Foto:Reprodução

O Ver-o-Peso se tornou o lugar preferido do escritor

Embora diversos aspectos de Belém tenham chamado a atenção de Mário de Andrade, Paulo Nunes destaca que um lugar ocupou posição especial em sua memória: o Ver-o-Peso.

Segundo o pesquisador, o escritor via Belém como uma cidade “meio malaia, meio indígena, meio indiana”, marcada pelo calor intenso e pelo cotidiano das pessoas. Gostava de tomar sorvete na terrasse do Grand Hotel, mas preferia caminhar pelo Ver-o-Peso, observar os trabalhadores, acompanhar o movimento das embarcações na Baía do Guajará e contemplar a rotina da feira.

O encantamento aparece de forma explícita nas páginas do diário escritas em 23 de maio de 1927: “Belém me entusiasma cada vez mais. O mercado hoje esteve fantástico de tão acolhedor. Só aquela sensação do mungunzá!…”.

Ao descrever a cena, Mário registra o trabalho de uma vendedora de mungunzá e conclui com uma das declarações mais conhecidas sobre a cidade:

“Tenho gozado por demais. Belém foi feita pra mim e caibo nela que nem mão dentro de luva”.

Confira registros feitos por Mário de Andrade durante passagem por Belém

Além do Ver-o-Peso, o escritor visitou o Museu Paraense Emílio Goeldi, conheceu praias de Mosqueiro, registrou um banho nas águas doces do distrito e percorreu outros locais do Pará, como a Praia do Caripi, em Barcarena, e o Marajó.

Segundo Paulo Nunes, o modernista também realizou registros em terreiros de religiões de matriz africana e em apresentações de bois-bumbás. Para o pesquisador, Manuel Bandeira teve influência importante nesse olhar sensível lançado por Mário sobre Belém.

“Vejo que para Mário Belém não era europeia, nem americana, nem indígena, nem africana, mas era tudo junto e misturado”, aponta.

Passeio de Mário de Andrade à praia do Chapéu-Virado, em Mosqueiro, durante a passagem por Belém, em maio de 1927. Foto: Reprodução do livro O Turista Aprendiz.

A viagem influenciou a obra e a visão de Brasil do modernista

Mais do que fotografias e páginas de diário, a passagem de Mário de Andrade pela Amazônia também deixou marcas em sua produção literária. Para Paulo Nunes, a imersão vivida pelo escritor em Belém e no Marajó contribuiu para ampliar sua compreensão sobre a diversidade cultural brasileira.

“Mário, em sua viagem, era total imersão no clima, paisagem, pessoas. O Marajó também o fascinou… Macunaíma provavelmente sofreu impactos e foi modificado graças à viagem de 1927”, considera o professor.

Na avaliação do pesquisador, o modernista também questionava a visão generalizada que parte dos paulistas tinha sobre a região Norte. Segundo ele, Mário defendia uma concepção plural do Modernismo, baseada na valorização das diferentes culturas que compõem o Brasil.

O encontro que nunca aconteceu

Entre as curiosidades lembradas por Paulo Nunes está um episódio que, para ele, representa um dos grandes desencontros da história cultural da Amazônia.

De acordo com o professor, Mário de Andrade não chegou a conhecer os integrantes da Academia do Peixe Frito, grupo formado por modernistas paraenses.

“Costumo brincar com fato esdrúxulo: o pior desencontro (ou não encontro) que houve na história da cultura da Amazônia foi o Gastão Vieira ter sido instruído para afastar Mário do grupo dos modernistas paraenses, os Novos ou os do Peixe Frito. Imaginemos o quão desafiador não teria sido um encontro de Mário com Bruno de Menezes”, finaliza.

Tradições descritas por Mário permanecem vivas no Ver-o-Peso

Quase um século depois da visita do escritor, parte da Belém registrada em seus diários ainda pode ser encontrada no Ver-o-Peso. O mungunzá — ou mingau de milho — que tanto chamou sua atenção continua sendo servido diariamente no mercado, preservando uma tradição que atravessa gerações.

O Ver-o-Peso foi o lugar que mais encantou Mário de Andrade durante sua passagem por Belém. Quase um século depois, a feira preserva tradições que o escritor registrou em seus diários de viagem. Foto: Wagner Almeida / Diário do Pará.

As frutas regionais também seguem despertando a curiosidade de quem visita o mercado. Esses sabores também conquistaram Mário de Andrade durante a passagem por Belém. No diário, o escritor destacou os sorvetes preparados com frutas amazônicas enquanto descrevia momentos vividos na cidade.

“Mas depois da janta, rapazes, ir tomar a fresca assentado na terrasse do Grande Hotel mordendo os sorvetes de cupuaçu ou bacuri, rapazes, me digam se tem coisa melhor neste mundo! Não tem não! Belém é sublime!”, escreveu em 21 de maio de 1927.

A despedida de Mário de Andrade confirma a intensidade da relação que construiu com Belém ao longo da viagem. No diário, ao deixar a cidade, o escritor registrou uma das declarações mais emocionadas sobre a capital paraense:

“1º de agosto. Último dia de Belém, me sinto comovido, palavra. Nunca na minha vida encontrei uma cidade que me agradasse tanto, com que eu simpatizasse tanto. Como enchimento de gostosura, passei em Belém os melhores dias de minha vida, inesquecíveis”, escreveu.

A frase sintetiza o encantamento que atravessa seus relatos e ajuda a explicar por que a passagem pela cidade permanece como um dos capítulos mais marcantes de O Turista Aprendiz.

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