Finalmente, vi “O Último Azul” (2025), filme brasileiro que está disponível na Netflix, depois de passar por poucos cinemas aqui em Belém, mesmo sendo uma das obras mais prestigiadas em 2025. Fiquei curioso em ver mais um papel recente de Rodrigo Santoro, depois do ótimo “O Filho de Mil Homens”, também do ano passado, com a maturidade de um ator que pode escolher com cuidado e sensibilidade os seus papéis.
Trata-se de uma distopia futurista, em plena Amazônia, sobre um governo que “captura” idosos que fazem 75 anos, levando-os a um local desconhecido e vendendo uma propaganda de que isso é uma política de bem-estar para eles. Nesse contexto do capitalismo tardio, conhecemos Teresa, uma senhora que se recusa a atender o chamado governamental e embarca em uma jornada para realizar o sonho de voar em um avião. Pelo caminho, ela conhece diversos personagens que parecem deslocados socialmente, assim como ela.
O veterano Gabriel Mascaro (do ótimo “Boi Neon” e de “Divino Amor”) cria uma narrativa transversal entre o realismo fantástico, a ficção científica e o naturalismo amazônico, sem perder de vista o objetivo principal: ser uma história sobre uma pessoa forçadamente deslocada do convívio social, a partir de uma estética que parte do simples (com a câmera próxima dos atores ou em detalhes dos seus corpos) para o deslumbre da paisagem amazônica e a direção de arte impecável.
Nesse processo de luta contra o etarismo e as convenções sociais, está o trabalho incrível de atuação da atriz Denise Weinberg como a protagonista, demonstrando firmeza no olhar, mesmo na compleição humilde da personagem. É possível reconhecer o processo de transformação dela, do incômodo com a aceitação social de um status quo absurdo por si só, para o desejo de liberdade plena, de corpo e alma. Atenção também para a atuação de Santoro, que assim como em “O Filho de Mil Homens”, mostra que sabe criar tipos mais complexos e até infantilizados, à margem de comunidades.
Entre metáforas reconhecíveis, Mascaro foge da máscara ultra realista das suas outras obras e se veste de uma singularidade única, que encontra o belo nos sentimentos periféricos.
O filme venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim do ano passado. Assistam e prestigiem o cinema nacional.
O post Crítica: O Último Azul apareceu primeiro em Diário do Pará.


