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quinta-feira, março 12, 2026

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A velha lente do preconceito: como parte da mídia nacional distorce a COP30 em Belém

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MSC Seaview e Costa Diadema transformam rotina tranquila da praia em ponto turístico temporário.Foto: Mauro Ângelo/ Diário do Pará.

A realização da COP30 em Belém deveria ser — e para muitos já é — um marco histórico para a Amazônia, para o Brasil e para a geopolítica climática mundial. Mas, paralelamente ao debate global sobre o futuro do planeta, uma parcela da mídia nacional tem optado por um caminho fácil, raso e perigoso: o da cobertura preconceituosa, descontextualizada e frequentemente misógina, que transforma desafios estruturais em munição para reforçar estigmas sobre a capital paraense.

A narrativa enviesada ganhou força antes mesmo do início da conferência, com reportagens que martelavam o preço elevado das hospedagens, ignorando que esse é um fenômeno recorrente em conferências climáticas ao redor do mundo — de Glasgow a Dubai — e omitindo o fato de que o setor hoteleiro local respondeu com alternativas, parcerias e ampliação de leitos.

Logo depois, a mira se voltou ao valor da alimentação na Blue Zone, apresentada como uma espécie de “aberração amazônica”, quando, na verdade, os preços são definidos por fornecedores internacionais que seguem os mesmos padrões já vistos em outras COP’s.

Cobertura enviesada e que desinforma

A cobertura enviesada atingiu seu ápice com episódios como o vídeo do repórter Márcio Gomes, da CNN, que virou usuário recorrente de conteúdos depreciativos sobre Belém em suas redes sociais, reproduzindo clichês, ironias e comentários insinuosos que nada têm de jornalismo. O tom, sempre carregado de desprezo, ecoa uma velha tradição de olhar para a Amazônia a partir de um eixo centro-sul que se imagina superior.

O primeiro vídeo de Gomes dia 6 /11 ainda na Cúpula de líderes que precedeu a COP, criticava o preço de lanches na Blue Zone da conferência, ironizando o tamanho dos alimentos e o valor: R$ 99,00 por dois salgados e um refrigerante em lata, fazendo uma crítica vazia e descontextualizada da realidade local, ignorando por completo valores de ingredientes e custos logísticos e operacionais de quem comercializa os produtos.

O segundo vídeo do repórter da CNN é mais recente e critica as condições do Tetro da Paz, espaço cultural histórico da capital paraense com quase 150 anos de história e palco cativo de apresentações de peças, concertos musicais e apresentações de artistas de renome nacional e mundial. Na postagem o jornalista tenta elogiar o espaço mas, pelo meio da sua fala, cita que o teatro andou “esquecido e sem manutenção”, o que nunca ocorreu.

Análise sempre distorcida e descontextualizada

Mas talvez o maior exemplo desse enquadramento distorcido seja o texto publicado pela Folha de S.Paulo sobre a praia do Brasília, em Outeiro, onde estão ancorados dois transatlânticos utilizados como hospedagem. O jornal narra o local como cenário de “abandono crônico”, descrevendo lixo, insegurança e precariedade urbana.

Cita o fato de que a “presença dos navios de luxo na beira do rio —algo nunca visto na região, uma das artificialidades características dessa COP30— devolveu o movimento de gente na praia do Brasília”, ignorando totalmente o fato que as praiais de Outeiro estão entre as mais procuradas por quem mora na região metropolitana aos finais de semana.

Os problemas, reais e reconhecidos pelos moradores, são apresentados como se fossem descobertas inéditas, revelações “emergenciais” que só agora vêm à tona por causa da conferência — uma leitura que ignora décadas de omissão e desigualdade estrutural enfrentadas por distritos periféricos de Belém e por municípios amazônicos como um todo.

O texto acerta ao mostrar o abandono histórico; mas erra ao sugerir que a COP “escancarou” algo que antes não existia. Erra mais ainda ao insinuar “improviso” onde houve, na verdade, uma solução ambientalmente responsável — a escolha de Outeiro, e não do porto central de Belém, evitou os impactos severos de uma dragagem de mais de 6 milhões de m³ de sedimentos. O que poderia ter sido apontado como uma decisão de proteção ambiental virou mote para mais um capítulo da narrativa do “caos amazônico”.

Vício histórico mostra a Amazônia como “inviável”

O ponto comum entre essas abordagens não é a crítica — crítica séria é bem-vinda e essencial — mas o vício histórico de representar Belém e a Amazônia como lugares inviáveis, atrasados, incapazes de sediar o que quer que seja. Uma visão que não dialoga com a realidade de uma cidade que mobilizou o maior planejamento intergovernamental já visto na região, organizou estruturas complexas, ampliou serviços públicos e recebeu delegações do mundo inteiro com profissionalismo e hospitalidade.

Ao insistir em enquadramentos que desumanizam a população local, que ridicularizam sotaques, estilos, paisagens e modos de vida, essa parcela da mídia contribui para reforçar o que há de mais atrasado: o preconceito ambiental travestido de cobertura jornalística.

Blindar não, mas criticar honestamente

Belém não precisa de blindagem. Precisa de crítica honesta, contextualizada e intelectualmente íntegra — algo que muitos veículos, felizmente, têm feito. Mas o país também precisa confrontar a repetição das velhas narrativas coloniais que surgem, invariavelmente, quando a Amazônia ocupa o centro da agenda global.

A COP30 ainda está no início. Resta saber se parte da mídia nacional terá maturidade para abandonar o exotismo fácil e adotar, finalmente, um jornalismo que enxergue a Amazônia com o respeito e a complexidade que ela exige.

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