Três décadas depois da Eco-92, o Brasil voltou a ser o centro das atenções mundiais nas discussões sobre o futuro do planeta. Em um discurso histórico na abertura oficial da COP30, nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou líderes globais à responsabilidade diante da crise climática e defendeu que o encontro na Amazônia seja “a COP da verdade”.
Lula iniciou sua fala lembrando a Cúpula da Terra, de 1992, no Rio de Janeiro, marco do multilateralismo ambiental e berço de conceitos que ainda orientam as políticas globais, como o desenvolvimento sustentável e o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Segundo o presidente, trazer a conferência novamente ao Brasil tem um valor simbólico e estratégico.
“A Convenção do Clima retorna à sua terra natal para recuperar o entusiasmo e o engajamento que embalaram seu nascimento”, afirmou Lula. “Belém será, pelas próximas duas semanas, a capital do mundo.”
Amazônia como protagonista
Em tom firme, o presidente destacou o significado de sediar a COP no coração da Amazônia, reforçando que o bioma não é apenas uma paisagem ou símbolo, mas “a casa de quase 50 milhões de pessoas”, incluindo 400 povos indígenas. Lula lembrou que a região enfrenta desafios sociais e econômicos profundos, e que é dever da comunidade internacional garantir que a floresta em pé gere prosperidade e oportunidades sustentáveis.
“Quem só vê a floresta de cima desconhece o que se passa à sua sombra”, disse. “Trazer a COP para a Amazônia foi uma tarefa árdua, mas necessária.”
O presidente também ressaltou que os investimentos em infraestrutura feitos para o evento deixarão um legado permanente para Belém, reforçando o compromisso de associar a agenda ambiental ao desenvolvimento local.
Resultados da Cúpula de Belém e criação do Fundo de Florestas Tropicais
Lula aproveitou o discurso para destacar os resultados da Cúpula dos Líderes, realizada nos dias que antecederam a COP30. O encontro reuniu líderes mundiais, representantes da sociedade civil e organismos internacionais, e resultou na criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) — que arrecadou US$ 5,5 bilhões em um único dia.
Além do fundo, foram firmados compromissos sobre manejo integrado do fogo, posse da terra para povos tradicionais, expansão de biocombustíveis, mercados de carbono, combate à fome e à pobreza e enfrentamento ao racismo ambiental.
“A COP da verdade”
Lula afirmou que a COP30 precisa marcar um divisor de águas no combate à crise climática, alertando que o aquecimento global já é “uma tragédia do presente”. Citou o furacão Melissa, que devastou o Caribe, e o tornado no Paraná, no Sul do Brasil, como exemplos recentes de eventos extremos.
“Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada”, alertou o presidente. “Romper a barreira de 1,5 grau de aumento na temperatura global é um risco que não podemos correr.”
Em referência ao avanço da desinformação e do negacionismo, Lula defendeu o papel da ciência e das instituições multilaterais:
“Na era dos algoritmos e do ódio, é momento de impor uma nova derrota aos negacionistas.”
Chamado à ação global
O presidente apresentou o documento “Chamado à Ação”, lançado pelo Brasil, estruturado em três eixos: cumprimento de compromissos climáticos, aceleração da ação global e centralidade das pessoas nas políticas ambientais.
Entre as propostas, Lula defendeu a criação de um Conselho do Clima ligado à Assembleia Geral da ONU, para garantir mais peso político às decisões ambientais. Ele também reforçou a necessidade de mapas do caminho para abandonar combustíveis fósseis, parar e reverter o desmatamento e mobilizar financiamento para países em desenvolvimento.
“A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e aprofunda o que já é inaceitável”, afirmou Lula. “Precisamos de uma transição justa que reduza as assimetrias entre o Norte e o Sul Global.”
Mensagem final e inspiração amazônica
Encerrando o discurso, Lula citou o líder indígena Davi Kopenawa, para lembrar que o pensamento da floresta é mais claro do que o das cidades.
“Espero que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito”, concluiu o presidente, sob aplausos.
Com o pronunciamento de Lula, a COP30 começou oficialmente em Belém, reunindo delegações de quase 200 países. O evento seguirá até 21 de novembro, com o desafio de construir consensos e medidas concretas que evitem o colapso climático e inaugurem uma nova era de cooperação ambiental global.
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