Onde tem floresta tem chuva! As florestas tropicais, como a Amazônia, desempenham um papel crucial na formação das chuvas e na regulação do clima, funcionando como bomba biótica de umidade. O desmatamento acelerado não só ameaça a biodiversidade, mas também compromete o ciclo hidrológico, reduzindo a quantidade de vapor d’água liberado na atmosfera. Com menos árvores, regiões podem enfrentar secas prolongadas e impactos devastadores na agricultura, no abastecimento de água e na qualidade de vida.
De acordo com a professora e pesquisadora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), Vania Neu, a floresta exerce vários papéis relacionados à regulação do clima. O primeiro deles é promover conforto térmico à população, amenizando as altas temperaturas. Outro ponto importante é a liberação de umidade para a atmosfera, em um processo chamado de “evapotranspiração”, responsável pela formação das chuvas.
Funciona assim: no processo de liberação da água, o vegetal também “solta” substâncias químicas chamadas de “Compostos Orgânicos Voláteis”, também conhecidas como “os cheiros da floresta”. Esses compostos são os responsáveis por formar os núcleos de condensação, estruturas em que as partículas de umidade se “unem” gerando uma gota de chuva. Na região amazônica, a grande floresta tropical é reconhecida pelo papel de “bomba biótica”, um processo biológico de relação com o oceano no ciclo hidrológico.
“A floresta vai jogar essa umidade para a atmosfera e vai vir umidade puxada do oceano para cá. E essa umidade que vem do oceano pelos ventos alísios se junta com a floresta amazônica, formando os rios voadores. É uma umidade muito grande, podendo ser comparada a descarga do rio Amazonas. É um rio de mesmo potencial que está acima de nós e que a gente não está vendo. Ele vem, passa por cima da floresta e é o que faz chover. Mas não é só aqui, esses ventos fazem uma curva quando batem nos Andes, descem e levam umidade para a região central do Brasil. Cerca de metade das chuvas que caem lá vêm da Amazônia”, esclarece a doutora em Ecologia.
Uma única árvore adulta é responsável por liberar, em média, 1 mil litro de água por dia para a atmosfera. Por outro lado, as chuvas são encarregadas de levar água para todo o ecossistema, mantendo o nível dos rios através do abastecimento do lençol freático, além de lavar a atmosfera, dessedentar animais e disponibilizar uma quantidade para o uso nas atividades domésticas.

IMPACTOS
Em contrapartida, o desmatamento da vegetação nativa, além de destruir ecossistemas e reduzir a biodiversidade, afeta o regime de chuvas. O corte em massa dessas plantas ainda contribui para o processo de “savanização”, em que vegetação natural de uma região dá espaço a uma paisagem mais aberta, seca e com árvores de menor porte, semelhante ao que é visto em uma savana. As consequências são os inúmeros impactos na qualidade de vida da população.
“Isso impacta a biodiversidade porque você vai ter mortalidade de árvore. Quando um rio seca completamente, como nessas secas que a gente viu nos últimos dois anos, isso levou à morte de todos os indivíduos aquáticos. E muitas vezes você pode ter espécies endêmicas daquele lugar que você perdeu para sempre. O impacto não é só na biodiversidade, mas principalmente na vida das pessoas. Na Amazônia, as pessoas têm uma ligação muito forte com o rio. Elas pegam água, pescam o peixe, que é a principal fonte de proteína delas; é um meio de deslocamento”, destaca.
“Nesse último ano, vimos inúmeras comunidades que ficaram isoladas porque o rio é a rua delas, e quando seca elas ficam sem água e muito mais suscetíveis a doenças porque os médicos não conseguem chegar até lá”, revela Vania Neu.
Atualmente, o desmatamento da Amazônia acende um alerta. Com as mudanças climáticas em curso, ano após ano são registrados níveis ainda mais elevados de temperatura global. Sem medidas necessárias para combater essa realidade, pode-se chegar ao chamado “ponto de não retorno”, ou “tipping point”, quando, apesar dos esforços coletivos, não conseguimos dar conta dos efeitos de uma crise ocasionada pela ação humana desenfreada.
“A gente pode plantar floresta e proteger a floresta. Em Belém, a gente vê que a cidade tem árvores em uma quantidade até considerável, se olharmos para os bairros mais nobres, como Batista Campos, que tem praças e outras várias áreas que têm árvores. Mas a gente vai para outros locais que não têm árvores, como é o caso do bairro do Guamá, então fica muito quente. A importância das árvores na cidade é fazer com que a água da chuva drene e recarregue o lençol freático”, conclui a docente.
Saiba mais
CURIOSIDADE
Ainda segundo a professora Vânia Neu, recentemente foi observado que as árvores estão começando a fechar seus estômatos em períodos de seca extrema. Essas estruturas celulares são responsáveis pelo controle da troca de gases entre a planta e a atmosfera. Esse comportamento tem sido uma espécie de defesa contra a perda de água, essencial para a sobrevivência da planta. Com pouca disponibilidade do líquido em períodos de alta temperatura, o vegetal libera menos água para a atmosfera, resultando em poucas precipitações.
Árvores
A importância das árvores não é só para a natureza, mas para o bem-estar das pessoas. Estudos já apontam que o contato visual com a natureza faz bem para a mente. Inclusive, em alguns processos de tratamentos de doenças os pacientes são colocados em contato com a paisagem verde, que ajuda a recuperar, traz equilíbrio e tranquilidade. Outros pontos são a proteção das comunidades, a prática de rituais ancestrais e religiosos, fornecimento de alimentos, como açaí, uxi, castanha-do-pará, além de óleos essenciais, tais como andiroba e copaíba.
O post Entenda a relação entre floresta e chuva apareceu primeiro em RBA NA COP.