28 C
Belém
sábado, março 7, 2026

Descrição da imagem

Saberes dos povos tradicionais são destaque em painel do Pavilhão Pará na Greenzone

Data:

Descrição da imagem

O papel das mulheres da floresta e a importância do retorno social e ambiental às comunidades tradicionais foram temas centrais nas falas de duas representantes da agricultura familiar e do bioextrativismo da Amazônia durante atividades do pavilhão Pará na Green Zone da COP30, em Belém. Jucileia Costa, trabalhadora rural de Abaetetuba, e Vera Luz, bioextrativista e quilombola, destacaram como seus modos de vida sustentáveis são mantidos por meio de conhecimentos ancestrais transmitidos entre gerações, e como esperam que esse saber seja valorizado a partir do debate climático global.

Jucileia Costa atua há anos com produtos da natureza e explica que sua prática é resultado de um processo contínuo de troca entre gerações e entre comunidades. “O conhecimento que a gente tem vem da nossa vivência e de outras gerações. A gente foi adquirindo e passando também para outras mulheres da nossa comunidade. É uma troca antiga, de pai para filho, de mãe para filha, que não pode se apagar”, afirma.

Segundo ela, essa transmissão de saberes ultrapassa os limites locais e conecta diferentes municípios. “A troca é contínua, não para. Hoje compartilhamos experiências com mulheres de outras comunidades, e isso fortalece todas nós”, acrescenta.

Jucileia Costa explica um pouco do seu trabalho como produtora rural.

Produção sem queimada e cuidado com a floresta

Produtora rural, Jucileia também enfatiza as práticas sustentáveis que regem seu trabalho. Ela explica que sua comunidade adota sistemas agroflorestais e rejeita completamente o uso de queimadas, garantindo que o solo e a biodiversidade se mantenham vivos.

“A gente não faz queimada. Todo nosso plantio é sem queimar. Isso ajuda a manter a produção e a relação com a natureza. Se queimar, você vai ter menos produtos na natureza”, pontua. Ela destaca ainda a importância da preservação de sementes nativas, que circulam entre comunidades como forma de resistência cultural e autonomia produtiva. “Quando adquirimos uma semente, já plantamos para ter dentro da comunidade. Fazemos troca com outros municípios. Nossa área hoje é cheia de produtos que sustentam o nosso trabalho.”

“Se você tem uma mãe que cuida de você, você tem que cuidar dela”

Para a bioextrativista e quilombola Vera Luz, o respeito pela floresta precisa ser encarado com a mesma intensidade com que se respeita uma figura materna. Ela critica o comportamento de pessoas que consomem os frutos da floresta, mas não retribuem esse cuidado.

“Quando a gente traz os frutos da comunidade para a cidade, o pessoal se alimenta, mas depois volta para destruir a própria árvore que deu comida. Se você tem uma mãe que cuida de você, tem que cuidar dela. Com a árvore é igual”, afirma.

Vera também denuncia a apropriação indevida de conhecimentos tradicionais sem que as comunidades recebam reconhecimento ou retorno. “Muitas vezes as pessoas vêm buscar conhecimento e não trazem de volta. Ainda dizem que foram eles que desenvolveram aquilo. Estamos perdendo o nosso saber para quem só leva e não devolve.”

Vera Luz defende o retorno de bens para a natureza.

Contaminação das águas e perda da qualidade de vida

A bioextrativista também alertou para os impactos da poluição na vida de quem depende diretamente da floresta e dos rios. “Para quem vive lá dentro, precisa viver de lá de dentro. Nós tomamos banho no igarapé, mas as águas estão contaminadas com plástico. Já estamos comendo peixe com plástico, bebendo água com plástico, até o biscoito que chega para nós já vem com plástico”, relata.

Para ela, preservar a natureza é uma questão de sobrevivência e de dignidade para as comunidades tradicionais. “Vamos preservar nossa natureza para nós mesmos, para que o povo do mato tenha trabalho, alimento saudável e a energia positiva da floresta.”

Vida no quilombo e autonomia pela mata

Ao falar sobre sua rotina no quilombo, Vera descreve um cotidiano baseado no trabalho comunitário e no uso sustentável dos recursos naturais. “Muitas pessoas me perguntam como eu vivo no meu sítio. Eu vivo trabalhando na roça, na colheita de frutas para vender. Trabalho também com sisal, tiro polpa. Tudo isso vem da mata. A mata dá tudo para você, até o seu remédio.”

Apesar das dificuldades vividas pelas comunidades, Vera acredita no potencial transformador da COP30. “Eu acho que vai mudar. Eu quero que mude. Se nós damos amor, eles também precisam dar amor para a gente. Se trouxerem de volta o que levaram, a gente pode dar em dobro o que vieram buscar”, concluiu.

O post Saberes dos povos tradicionais são destaque em painel do Pavilhão Pará na Greenzone apareceu primeiro em RBA NA COP.

Compartilhe

Descrição da imagem

Mais Acessadas

Descrição da imagem