Lucas Quirino/DOL – Em meio a um cenário global de urgência climática e crescentes pressões por ação concreta, a Cúpula dos Líderes, evento preparatório para a COP30, encerrou nesta sexta-feira (7) dois dias de intensos debates em Belém, reunindo mais de 140 delegações, entre chefes de Estado, ministros e representantes internacionais. O encontro consolidou a capital paraense como epicentro das discussões ambientais globais, num momento em que o planeta enfrenta recordes de calor e emissões.
A cúpula marcou o tom político e simbólico que deve guiar as negociações formais da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que começa na segunda-feira (10). Com discursos incisivos, anúncios financeiros e apelos pela justiça climática, os líderes mundiais buscaram alinhar compromissos para um novo ciclo de cooperação ambiental.
Lula defende a “COP da Verdade” e o protagonismo da Amazônia
No discurso de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a COP30 como a “COP da Verdade” — um chamado à honestidade política diante da crise ambiental. Diante de 57 chefes de Estado e mais de 140 delegações, Lula lembrou que o ano de 2024 foi o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

“O planeta caminha para ser 2,5 graus mais quente até 2100. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos coragem e determinação para transformá-la”, disse o presidente. Ele associou o desafio climático à luta contra a desigualdade e a fome, reforçando que “a crise climática é também uma crise de justiça”.
Realizada no Parque da Cidade, em Belém, a abertura teve forte presença da cultura amazônica. O grupo Arraial do Pavulagem levou cores e ritmos regionais ao palco, transformando a cerimônia em um cortejo simbólico da Amazônia viva — um lembrete da dimensão humana e cultural do bioma.

Fundo Florestas Tropicais para Sempre: o grande anúncio
O momento mais marcante do primeiro dia foi o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Fund – TFFF), uma proposta brasileira que promete inaugurar um novo modelo de financiamento climático global.
Com o objetivo de captar até US$ 125 bilhões para a preservação das florestas tropicais, o fundo foi apresentado por Lula durante um almoço com líderes mundiais. O Brasil anunciou um aporte inicial de US$ 1 bilhão, enquanto a Noruega confirmou US$ 3 bilhões, e Portugal, Irlanda e França também declararam apoio.
De acordo com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o TFFF é um mecanismo inovador que integra capital público e privado: “Para cada dólar público, queremos atrair quatro dólares privados. A conservação precisa gerar desenvolvimento e retorno econômico.”

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que 20% dos recursos serão destinados diretamente a povos indígenas e comunidades tradicionais, com governança autônoma e monitoramento por satélite. “O fundo cria valor econômico não ao cortar uma árvore, mas ao deixá-la em pé”, afirmou o ministro norueguês Andreas Bjelland Eriksen, em apoio à proposta.
Até o fim da cúpula, 53 países haviam endossado politicamente o fundo — reunindo nações que detêm 90% das florestas tropicais do planeta.
Transição energética e justiça climática no centro do debate
O segundo dia da Cúpula dos Líderes foi marcado por discussões sobre transição energética justa, financiamento climático e o décimo aniversário do Acordo de Paris.
Em discurso na Sessão Temática sobre Transição Energética, Lula afirmou que as decisões tomadas hoje definirão “o sucesso ou o fracasso na batalha contra a mudança do clima”. Segundo ele, 75% das emissões globais vêm da produção e do consumo de energia, e a mudança para fontes limpas é inevitável.
“O mundo já triplicou o uso de renováveis na última década. Em 2025, a energia limpa se tornou a principal fonte global de eletricidade. Mas ainda gastamos o dobro com armas do que com ação climática — e isso é pavimentar o caminho para o apocalipse climático”, alertou.
Lula também anunciou a criação do Fundo Nacional para o Clima e Justiça Energética, que destinará parte dos lucros do petróleo à transição energética no Brasil.
Propostas globais e o Conselho do Clima
Na plenária sobre os 10 anos do Acordo de Paris, Lula defendeu que Belém marque uma nova fase da diplomacia climática: a era da implementação. “Não basta reafirmar metas — é preciso preencher a lacuna entre a retórica e a realidade”, disse.
O presidente apresentou o Mapa do Caminho de Belém, que busca mobilizar US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 em financiamento climático, e propôs novas formas de arrecadação, como taxação de grandes fortunas, tributação de multinacionais e a expansão dos mercados regulados de carbono.
Lula também sugeriu a criação de um Conselho Global do Clima, órgão permanente de alto nível para coordenar políticas e compromissos internacionais.
Diplomacia e cooperação internacional
Entre os discursos de líderes estrangeiros, destacou-se o do chanceler alemão Friedrich Merz, que reforçou o apoio da Alemanha e da União Europeia ao TFFF e defendeu uma transição “aberta à inovação tecnológica”.
“Queremos combinar proteção climática e sucesso econômico. A independência do carvão e do petróleo é também uma questão de segurança internacional”, disse Merz, anunciando ainda que o Brasil será o país parceiro da Feira Industrial de Hannover de 2026, a maior do mundo.

O governador do Pará, Helder Barbalho, anfitrião da cúpula, destacou que “a floresta precisa valer mais em pé do que destruída” e defendeu a integração entre desenvolvimento social e proteção ambiental. Helder também celebrou a parceria tecnológica com a Califórnia, que deve ser formalizada durante a COP30 com o projeto Vale Bioamazônico de Tecnologia, inspirado no Vale do Silício.

O caminho até a COP30
Com a Cúpula dos Líderes encerrada, Belém se prepara para receber, a partir de segunda-feira (10), mais de 50 mil participantes de quase 200 países. As negociações da COP30 devem se concentrar em três eixos principais:
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Transição energética: o Brasil tentará firmar o “Mapa do Caminho de Belém”, com metas e critérios para ampliar o investimento global em energia limpa.
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Adaptação: os países discutirão indicadores do Global Goal on Adaptation (GGA) e buscarão triplicar os recursos destinados a adaptação até 2030.
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Finanças climáticas: o desafio será transformar o Roteiro de Baku a Belém em compromissos verificáveis e sustentáveis.

A expectativa é de que a COP30 seja lembrada como a conferência da implementação — o momento em que promessas se transformam em ação. Como resumiu a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, na plenária de abertura:
“Que a COP30 seja lembrada como a conferência que mudou o rumo da humanidade. Que possamos não apenas descrever as leis da física, mas escrever uma nova página da história.”
Balanço positivo
A Cúpula dos Líderes encerrou como um marco simbólico e político da nova fase da diplomacia climática. Entre o lançamento histórico do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, o apelo pela transição energética justa e a busca por financiamento real e inclusivo, o Brasil assume protagonismo no debate global. Agora, todas as atenções se voltam para a COP30, onde o mundo espera que as palavras deem lugar à ação — e que Belém se torne, de fato, o ponto de virada na luta contra a crise climática.
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