Andressa Ferreira/DOL – A crescente onda de desinformação sobre as mudanças climáticas tem se consolidado como um dos maiores riscos contemporâneos à saúde pública, à segurança e à capacidade de resposta das sociedades diante de eventos extremos. Na Amazônia e no Brasil, onde secas históricas, enchentes e ondas de calor já afetam milhões de pessoas, a circulação de informações falsas pode atrasar ações emergenciais, sabotar políticas ambientais e até custar vidas. É neste contexto que Belém recebe a COP30, Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que promete ser um marco na luta contra a crise climática e na construção de estratégias globais contra a desinformação.
Especialistas alertam que negar a existência das mudanças climáticas ou minimizar seus efeitos diretos — como o aumento das temperaturas, a intensificação de eventos extremos e as perdas socioeconômicas associadas — reduz a percepção de risco das populações e enfraquece a preparação comunitária. Em alguns casos, boatos atuam diretamente contra medidas essenciais, como campanhas de prevenção a queimadas, alertas de saúde sobre qualidade do ar e orientações de evacuação em áreas suscetíveis a enchentes.
Tainá Rauber, Engenheira Ambiental, especialista em auditoria, perícia e consultoria ambiental e especialista em engenharia de produção, explica que a desinformação cria um ambiente de descrença que compromete tanto a resposta rápida quanto o planejamento de longo prazo.
“Quando a população não entende que o aumento das temperaturas e os eventos extremos – como o que aconteceu no Paraná recentemente – estão ligados ao aquecimento global, há menos preparo diante de ondas de calor, enchentes, secas e queimadas”, sinaliza ela.

Do ponto de vista da saúde pública, a especialista reforça que a desinformação compromete a capacidade de prevenção e resposta a situações agravadas pelo aquecimento global. “O aumento das temperaturas, por exemplo, intensifica ondas de calor, que podem causar desidratação, exaustão térmica e agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, especialmente em idosos e crianças. Além disso, a alteração dos regimes de chuva e umidade cria condições favoráveis à proliferação de vetores de doenças, como o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya”, alerta Tainá.
Outro ponto destacado pela Engenheira Ambiental é em relação à segurança, cujos riscos são igualmente sérios. “Eventos climáticos extremos como enchentes, deslizamentos, secas prolongadas e queimadas estão se tornando mais frequentes e intensos. A falta de informação confiável faz com que comunidades vulneráveis não adotem medidas preventivas adequadas, aumentando o número de vítimas e prejuízos materiais. Além disso, a desinformação pode gerar descrédito em alertas meteorológicos e planos de contingência, enfraquecendo a resposta da defesa civil e de órgãos ambientais”, pontua ela.
A COP30, sediada em Belém, coloca o Brasil no centro dessa discussão ao reconhecer que a comunicação climática é tão estratégica quanto as negociações de emissões e financiamento.
“Combater a desinformação climática é essencial para proteger vidas, fortalecer a saúde pública e garantir a segurança das comunidades em um cenário de mudanças ambientais cada vez mais intensas”, defende a especialista.
Fake news podem comprometer comunidades vulneráveis
Ao reunir cientistas, governos, povos indígenas, movimentos sociais e organizações globais, a conferência busca entender como combater as narrativas que distorcem evidências científicas e alimentam a polarização. Um dos focos é fortalecer sistemas de monitoramento e plataformas oficiais de informação, além de integrar conhecimento tradicional e ciência como pilares para orientar políticas públicas.
Leia também: Justiça climática: como conversar com crianças e jovens sobre o futuro do planeta
Outro fator enfatizado na conferência é o papel da educação climática. Pesquisadores destacam que populações mais informadas conseguem não apenas se proteger melhor, mas também cobrar políticas adequadas e identificar discursos políticos baseados em inverdades. Na Amazônia, onde comunidades ribeirinhas e urbanas já convivem com riscos ampliados pelo desmatamento e pelas mudanças no regime de chuvas, fortalecer a alfabetização climática é urgente para preservar vidas.
“Ao espalhar dúvidas sobre a origem e a gravidade das mudanças climáticas, as fake news reduzem o senso de urgência da população e dos gestores públicos. Isso faz com que medidas preventivas, como planos de contingência, obras de drenagem, reflorestamento de margens de rios ou realocação de famílias em áreas de risco, sejam postergadas ou recebam menos investimento político e financeiro. As fake news também desacreditam fontes científicas e órgãos oficiais, dificultando a divulgação de alertas climáticos e campanhas educativas. O resultado é um ciclo perigoso: menos informação, menor prevenção e mais danos humanos e materiais”, aponta Tainá.
Enfrentar a desinformação é uma medida de justiça climática
Quando informações falsas desacreditam alertas meteorológicos ou minimizam impactos ambientais, por exemplo, as populações mais pobres — que têm menos acesso aos sistemas de proteção — tornam-se as primeiras a sofrer. Autoridades brasileiras presentes na COP30 defendem que enfrentar a desinformação é, portanto, uma medida de justiça climática.
“A desinformação pode fazer muita gente duvidar da gravidade da crise climática. Quando circulam notícias falsas dizendo que o aquecimento global “é exagero” ou que “sempre foi assim”, as pessoas acabam perdendo a confiança na ciência e deixando de perceber que o problema é real e já está acontecendo. Essa falta de confiança é perigosa, porque diminui o apoio a ações e políticas ambientais que poderiam proteger as comunidades e reduzir os impactos. Além disso, quando a população desacredita nos alertas climáticos ou nas informações dos órgãos oficiais, fica mais vulnerável a situações de risco, como enchentes, secas e ondas de calor”, expõe a Engenheira Ambiental.
Combater a desinformação é essencial. A informação correta, vinda de fontes confiáveis e explicada de forma simples, ajuda as pessoas a entenderem o que está em jogo e a participarem das soluções — seja mudando hábitos, cobrando autoridades ou apoiando iniciativas que cuidam do meio ambiente.
“Se as pessoas continuarem recebendo mensagens falsas sobre o meio ambiente e o clima, corremos o risco de enfraquecer a luta contra a crise climática. A desinformação faz com que muita gente duvide da gravidade do problema ou ache que “não há nada a ser feito”, e isso atrasa medidas que poderiam proteger vidas, economias e ecossistemas”, alerta Tainá.
Para a Engenheira Ambiental, quando a população não entende as causas e consequências das mudanças climáticas, “falta pressão social por políticas públicas e as ações de prevenção e adaptação ficam em segundo plano”. O resultado, segundo a especialista, “é um aumento nos impactos que atingem, principalmente, quem vive em áreas vulneráveis e depende diretamente dos recursos naturais”, como famílias de comunidades rurais, ribeirinhas, povos indígena e quilombolas.
Ao evidenciar a Amazônia como epicentro das discussões globais, a COP30 reforça que a luta contra a desinformação é também uma luta pela vida. Em um momento em que cada grau de aquecimento importa, garantir que a população receba dados confiáveis é tão decisivo quanto reduzir emissões ou preservar florestas.
A mudança, para Tainá Rauber, Engenheira Ambiental, especialista em auditoria, perícia e consultoria ambiental, está em comunicar sobre o assunto de forma simples, verdadeira e próxima das pessoas. Ela destaca que “as informações da COP30 e sobre as decisões globais que estão sendo debatidas precisam ser traduzidas para a realidade do dia a dia: como o clima influencia o preço dos alimentos, o abastecimento de água, a saúde das famílias e o futuro do trabalho”.
“É necessário levar essa conversa para todos os espaços como principalmente as escolas, rádios, redes sociais, igrejas e outros, para que a informação chegue também a quem tem menos acesso à mídia formal. Mostrar exemplos reais, de pessoas e comunidades que já estão agindo, como o adolescente João do Clima, que ajuda a inspirar e despertar o senso de responsabilidade coletiva”, lembra ela.
Belém se torna, assim, palco de um chamado urgente: proteger o clima exige, antes de tudo, proteger a verdade. “A informação é uma ferramenta de proteção. Quando as pessoas entendem o que está acontecendo, elas conseguem participar das soluções e é isso que pode transformar os debates da COP30 em mudanças concretas na vida de todos”, finaliza a especialista.
O post COP30: entenda como a desinformação climática é um risco real para todos apareceu primeiro em RBA NA COP.


