Lucas Quirino/DOL – A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em Belém, está sendo marcada pela busca por resultados concretos, a alimentação — historicamente tratada como tema periférico — entrou de vez no centro das discussões climáticas. Entre debates sobre finanças sustentáveis, uso do solo e implementação das NDCs, especialistas e instituições chamam atenção para um ponto decisivo: não haverá transição climática sem transformar os sistemas alimentares. A COP30 tem evidenciado que o “prato” é tão determinante quanto a energia ou o transporte nas emissões globais.
Dentro do Action on Food Hub, pavilhão formado por um consórcio de quase 20 organizações, o Global Landscapes Forum (GLF) reuniu pesquisadores, gestores públicos e líderes comunitários para discutir como a abordagem territorial pode integrar produção, conservação e bem-estar social.
Para Isabel Mesquita, coordenadora regional do GLF para a América Latina, a escolha de atuar dentro da Zona Azul este ano foi estratégica. “Pensamos que, com tantas expectativas para a COP30, haveria muita gente circulando aqui dentro. E queríamos captar esse público. No evento de ontem, vimos que, mesmo quando outras áreas estavam esvaziadas, nosso pavilhão estava sempre cheio”, afirma.
Mesquita explica que a abordagem territorial — ou Landscape Approach — busca promover o uso múltiplo das áreas, combinando agricultura, conservação, moradia e serviços ecossistêmicos para criar paisagens saudáveis. Essa visão, diz ela, é fundamental para integrar a produção de alimentos às políticas climáticas.
“Trabalhamos com programas de finanças sustentáveis e com comunidades e jovens que atuam diretamente na restauração. O que esperamos desta COP é que surjam diretrizes concretas para que comunidades sejam beneficiadas pelo financiamento climático”, destaca ela.

O GLF também se prepara para lançar, em parceria com o governo de Luxemburgo, uma plataforma voltada à promoção da ação local — iniciativa anunciada em breve.
Alimentação como eixo central da mitigação
A nutricionista Jamile Barros, especialista em sistemas alimentares sustentáveis, reforça que a produção de alimentos precisa ocupar um espaço prioritário nas estratégias globais de mitigação.
“A produção de alimentos precisa ser tratada como eixo central, e não como um tema paralelo. O modelo alimentar baseado no alto consumo de produtos de origem animal é responsável por grande parte das emissões, do desmatamento e da pressão sobre recursos naturais”, afirma.
Segundo Barros, incluir a alimentação no debate climático permite construir caminhos “realmente efetivos”, como incentivar sistemas vegetais, fortalecer cadeias sustentáveis e promover o uso inteligente do solo. Ela alerta: “Enquanto o prato não entrar nas mesas de decisão, seguiremos discutindo soluções parciais.”

A COP da Implementação e os sistemas alimentares
A expectativa de que a COP30 seja “a COP da implementação” também passa pelo campo da alimentação. Jamile destaca que o avanço real depende de mecanismos claros e mensuráveis:
“É preciso criar instrumentos que permitam implementar políticas de transição alimentar, redução de emissões e fortalecimento de sistemas sustentáveis. Isso inclui compras públicas sustentáveis, apoio à produção vegetal e fortalecimento de pequenos negócios”, aponta a nutricionista.
Isabel Mesquita concorda. Para ela, a implementação só será concreta quando alcançar o território. Entre as principais demandas está a definição de critérios que garantam que o financiamento climático chegue às comunidades que mantêm florestas em pé e produzem de forma sustentável.
Como ampliar o debate?
Para Jamile Barros, transformar os sistemas alimentares exige envolver diferentes públicos — e tornar o tema acessível. “É preciso educação alimentar e ambiental, comunicação clara e valorização dos saberes regionais. Alimentação sustentável não é tendência elitizada — é necessidade para saúde, segurança alimentar e preservação ambiental”, afirma.
O GLF reforça essa visão ao trazer para a COP jovens lideranças, comunidades locais e atores financeiros, conectando debates globais às realidades territoriais. O objetivo é mostrar que alternativas já existem — e podem ser ampliadas.
No centro da COP30, um consenso
À medida que a conferência avança, cresce a percepção de que a transformação dos sistemas alimentares é uma das chaves para cumprir metas climáticas. E tanto especialistas quanto instituições parecem concordar: não será possível implementar o Acordo de Paris sem reimaginar como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos.
Se a COP30 pretende marcar a virada da ambição para a ação, a agenda alimentar — antes coadjuvante — emerge como protagonista. E, neste pavilhão recheado de debates, experiências e futuros possíveis, o recado é claro: mudar o clima passa, necessariamente, pelo que colocamos no prato.
O post COP30 amplia debates sobre produção alimentar sustentável e papel dos territórios apareceu primeiro em RBA NA COP.


